Antero de Quental

A Obra

Odes Modernas
Colectânea de poesias dedicada a Germano Meireles, publicada em 1865, que, reflectindo as influências do humanitarismo de Proudhon e da dialéctica evolucionista de Hegel, rompeu com a temática sentimentalista que caracterizou a segunda geração romântica e impôs o romantismo social, marcado pelo fervor revolucionário, pela sede de justiça social e pela crença na apoteose futura da verdade: "O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:/ Justiça, é esse o tema imenso do sermão:/ A missa nova, essa é missa de Liberdade:/ E órgão a acompanhar... a voz da Revolução!" ("No templo"). Referindo-se, em 1887, na célebre "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck", às Odes Modernas , Antero chamar-lhes-á "poesia de combate", caracterizando o tom e os temas predominantes no volume: "o panfletário divisa-se muitas vezes por detrás do poeta, e a Igreja, a monarquia, os grandes do mundo são o alvo das suas apóstrofes de nivelador idealista. Noutras composições, é verdade, o tom é mais calmo e patenteia-se nelas a intenção filosófica do livro, vaga sim, mas humana e elevada". Assumindo a "missão revolucionária da poesia" exposta na nota posfacial, é na qualidade de "Soldado do Futuro" ("Pois, se são operários do futuro,/ Semeadores da seara nova,/ Que lançam uma ideia em cada cova,/ Da dura história sobre o chão escuro", de "Pater"), à escuta da "voz das multidões", que Antero se dirige "A um Poeta": "Há mais alta missão, mais alta glória:/ O combater, à grande luz da História,/ Os combates eternos da Justiça". Esta "Justitia mater" de raiz proudhoniana aparece em "Tese e Antítese" concebida hegelianamente como a "nova ideia" - "desgrenhada/ Torva no aspecto, à luz da barricada" - que o poeta, como revolucionário, ajuda a revelar.
Na célebre "Nota" posfacial, Antero formula uma concepção socialmente militante da missão do poeta e da poesia, voltada para a "reconstrução do mundo humano sobre as bases eternas da Justiça, da Razão e da Verdade, com exclusão dos Reis e dos Governos tirânicos, dos Deuses e das Religiões inúteis e ilusórias", sustentando, assim, uma prática poética inconciliável com o que designa de "arte pela arte", isto é, uma poesia meramente decorativa. Este texto, juntamente com os prefácios de Teófilo Braga à Visão dos Tempos e às Tempestades Sonoras , motivou as alusões irónicas de Castilho, na carta-posfácio ao Poema da Mocidade , de Pinheiro Chagas, à moderna escola de Coimbra e à sua poesia ininteligível, vindo, portanto, a desencadear a Questão Coimbrã.

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Primaveras Românticas
Volume que reúne a produção poética da juventude de Antero de Quental, incluindo o poema Beatrice , publicado em Coimbra em 1863, e algumas poesias dispersas pela imprensa. Anteriores às influências de Proudhon e de Hegel, que nortearam a poesia social e revolucionária posta em prática nas Odes Modernas e teorizada na "Nota (sobre a missão revolucionária da poesia)" e nos opúsculos Bom Senso e Bom Gosto e A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (todos de 1865), as composições elegem como tema preferencial o Amor, nos seus múltiplos cambiantes ("Amor no mar"), muitas vezes relacionado com Deus ("Beatrice", "A uns quinze anos") e a Natureza ("Idílio sonhado"). Talvez por isso Antero questione, no curto prefácio, o "merecimento moral" destes versos (a que viria a chamar, na "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck", de 1887, "du Heine de deuxième qualité"), atribuindo-os à "inocência" e à "fantasiadora ignorância juvenil", a "um sopro romântico, cálido mas balsâmico", que fez "rebentar tumultuariamente as nossas primaveras em borbotões de flores". Algumas composições dão voz às inquietações metafísicas ("Nuvens da tarde", "Velut umbra") e ao sentimento pessimista ("Primeiros conselhos do Outono") que serão vincados na obra posterior de Antero. A colectânea inclui vários poemas posteriormente recolhidos nos Sonetos Completos (como "Beatrice", "Amor vivo", "Mãe", "Jura", "Metempsicose", "Enquanto outros combatem", "A uma mulher", entre outros), revelando-se desde logo a preferência do autor por essa forma poética, em que foi, de facto, exímio.

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Retirado da História da Literatura Portuguesa - © 2002 Porto Editora, Lda.

 
   
 
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